O verdadeiro inimigo
A violência, o ódio e a divisão não são o caminho para a transformação que buscamos. Divide et impera, dividir para dominar, é uma estratégia antiga, que encontra terreno fértil sempre que esquecemos a humanidade que compartilhamos. Passamos a enxergar inimigos no vizinho, no amigo, no familiar, e deixamos de questionar as estruturas e os interesses que de fato comprometem a vida em si, e o que temos em comum.
Mas essa estratégia só funciona por um motivo: ela encontra, em cada um de nós, uma divisão que já estava ali, não resolvida. Ela não cria a fratura — apenas a externaliza. A psicanálise deu um nome a esse movimento: projeção. Aquilo que não conseguimos sustentar por dentro busca um rosto do lado de fora: a agressividade reprimida, a opressão que um dia sofremos e não elaboramos, o próprio desejo de dominar que não reconhecemos em nós. Quase sempre, a intensidade com que odiamos um traço no outro denuncia uma conta não resolvida com esse mesmo traço. O inimigo ali fora costuma ser a parte de dentro que nos recusamos a ver. É isso que o conflito nas ruas revela: o reflexo de uma divisão interna que ainda não foi atravessada dentro de cada um.
Quando a divergência de ideias vira justificativa para a violência, a intimidação, o silenciamento ou a morte, precisamos parar e discernir: em que momento a defesa de uma ideia passou a valer mais do que a própria vida humana que ela deveria servir?
A política deveria organizar a vida coletiva, não autorizar a destruição de quem pensa diferente.
A engrenagem invisível
Independentemente de nossas convicções, a imensa maioria de nós deseja o mesmo: trabalho, segurança, saúde, educação, liberdade, respeito e a possibilidade de construir um futuro melhor. Divergimos sobre os caminhos e as prioridades, e é justamente por isso que precisamos preservar a capacidade de dialogar, questionar e discernir. E talvez o convite mais difícil seja discernir sobre o próprio sistema que herdamos. O divide et impera foi imposto há séculos como motor da vida em sociedade, e seguimos tratando a disputa como se fosse o jogo em si, quando ela é apenas a distração. O que se vê na superfície é performance: dois lados, duas torcidas, o embate encenado todos os dias para que a atenção nunca desça até a engrenagem que o sustenta. E essa engrenagem não aparece. Quem de fato comanda não sobe ao palco, quem lucra com o caos não precisa aparecer, e isso não é descuido, é proposital. Enquanto nos ocupamos uns com os outros, o caos se mantém; e o caos é funcional, porque é ele que mantém a máquina girando, muito além da performance dos fantoches partidários de cada lado.
Mas e se, por baixo dessa estratégia, houvesse também uma pergunta sendo feita a nós como indivíduos e como sociedade? E se essa mesma divisão fosse, de algum modo, uma medida? A forma como se revela o quanto uma sociedade amadureceu para sustentar a diferença sem se despedaçar?
Não para justificar o que esse sistema produz de violência. Mas para reconhecer o que ele talvez revele: que ainda confundimos divergência com inimizade, e opinião com essência. E somente uma maturidade essencial — a que reconhece, por baixo de toda opinião, a mesma essência — seria capaz de atravessar essa dicotomia imposta. Não escolhendo um lado, mas deixando de caber nela.
Porque somos uma espécie só. Rica em suas expressões e, ainda assim, idêntica naquilo que mais importa: os mesmos valores, as mesmas necessidades, o mesmo desejo de viver com dignidade. Talvez baste uma consciência mais madura para que as diferenças de opinião deixem de ser confundidas com quem verdadeiramente somos.
Não se trata de ignorar ou relativizar injustiças, nem mesmo fingir que todas as escolhas produzem as mesmas consequências. Trata-se de não deixar que nossas convicções sejam sequestradas a ponto de perdermos a capacidade de reconhecer a humanidade do outro. Combater o extremismo não pode significar reproduzir a sua lógica. Se respondemos ao ódio com mais ódio, à intolerância com mais intolerância, à desumanização com a desumanização do adversário, seguimos alimentando o mesmo mecanismo que queremos superar.
Isso não exige passividade diante da violência ou do autoritarismo. Exige firmeza, responsabilidade e compromisso com os princípios democráticos. É possível estabelecer limites, responsabilizar quem comete abusos e defender direitos sem transformar a destruição do outro em objetivo. Uma vitória eleitoral pode representar uma resposta política importante a um momento, mas, sozinha, nenhuma vitória dissolve as estruturas que se alimentam da polarização, nem garante a transformação profunda de que precisamos. Votar em alguém também não significa adesão integral ao seu projeto: muitas vezes é apenas a escolha entre as alternativas percebidas como possíveis naquele momento.
A mudança coletiva não depende só de quem ocupa o poder. Ela se manifesta também em como educamos, consumimos, trabalhamos, nos relacionamos e reagimos àquilo que nos desafia. É aqui que a transformação individual deixa de ser abstração e se torna responsabilidade concreta. Não basta falar em consciência enquanto alimentamos a hostilidade nas nossas relações. Não basta defender a paz enquanto celebramos a humilhação de quem consideramos adversário. Não basta desejar um mundo mais justo sem examinar como contribuímos, todos os dias, para a injustiça, a exclusão e a indiferença.
A evolução da consciência precisa encontrar expressão na vida: no discernimento que antecede o julgamento, na coragem de reconhecer os próprios erros, na capacidade de sustentar diferenças sem abrir mão da dignidade, e na disposição de proteger a vida, com firmeza, mesmo quando isso exige rever nossas próprias certezas.
Encontrar o Norte
Porque despertar não é lutar contra o outro, nem contra as forças que nos movem: a cultura, o medo, o pertencimento, as certezas herdadas. Despertar é encontrar um Norte. E quando existe Norte, essas mesmas forças deixam de ser prisão e se tornam correnteza a favor do caminho.
É por isso que toda mudança real começa de dentro para fora. Não porque o mundo lá fora não importe, mas porque é o desequilíbrio interno que, multiplicado por milhões, se derrama em caos nas ruas. Uma pessoa em paz com as próprias contradições não precisa de um inimigo para se sentir inteira, e é essa paz que silencia o ruído, e que se revela ao mundo. O externo só encontra equilíbrio quando deixa de ser alimentado pelo nosso desequilíbrio interno.
E o poder silencioso disso desarma o divide et impera: ele só tem força sobre quem já está dividido por dentro. Uma pessoa inteira não pode ser partida ao meio para servir a nenhum dos lados. É uma questão de coerência. Esse é o único terreno que nenhum sistema alcança, e o único lugar onde ninguém pode agir por nós. Reencontrar a própria unidade interior é o ato mais radical que existe: não derruba quem comanda, mas retira da engrenagem justamente aquilo de que ela se alimenta.
Talvez uma das maiores armadilhas da polarização seja nos convencer de que é preciso escolher entre pertencer a um grupo e pensar por conta própria. Mas nenhuma ideologia deveria exigir o abandono do discernimento, assim como nenhuma convicção deveria nos tornar indiferentes à humanidade alheia.
Não precisamos concordar em tudo para reconhecer o que precisa ser protegido. Precisamos de uma sociedade capaz de discordar sem se destruir, de responsabilizar sem desumanizar, de transformar sem fazer da violência o preço da mudança. Porque o verdadeiro avanço não está em derrotar um adversário. Está em deixar de reproduzir, dentro de nós e nas estruturas que construímos, aquilo que mantém a humanidade presa aos mesmos ciclos.
A travessia
Essa prisão tem muitos nomes, e talvez seja a história mais antiga que contamos a nós mesmos. Platão a desenhou como a caverna: homens acorrentados diante de sombras, convencidos de que a parede é a verdadeira realidade, até que um se volta, atravessa a saída e retorna para contar que havia luz. Nosso tempo a reencenou como a Matrix: uma realidade construída da qual é preciso se desacoplar para enxergar o que sempre esteve ali. Joseph Campbell a reconheceu em quase todas as culturas e a chamou de jornada do herói: partir, atravessar o umbral, enfrentar a provação e voltar transformado, trazendo algo para os que ficaram. E, muito antes de qualquer teoria, Jesus já apontava para dentro, ao dizer que o Reino não estava num lugar distante, mas aqui, entre nós e em nós.
Sempre o mesmo movimento, e nenhuma dessas travessias se faz derrotando um inimigo do lado de fora. Todas se fazem despertando: reconhecendo a ilusão, atravessando-a e voltando com olhos novos para o mesmo mundo. É esse o convite que insiste em retornar a cada geração, sob uma nova roupagem, e que talvez só agora, divididos como estamos, estejamos prontos para escutar.
Chegamos ao ponto: quem é o verdadeiro inimigo? E talvez a resposta mais honesta seja também a mais simples: nunca houve um. Há apenas uma fratura por dentro. E a fratura, em si, não é inimiga: toda ferida carrega informação, e muitas vezes é ela que nos aprofunda e nos torna mais inteiros, quando temos a coragem de olhá-la com honestidade em vez de projetá-la no outro. O que nos divide não é tê-la, é não reconhecê-la. Deixada no escuro, ela se externaliza, virando combustível para a engrenagem da divisão.
Por isso o gesto mais livre não é escolher melhor dentro do jogo. É deixar de ser a peça de que o jogo precisa. Não é deixar de jogar, é jogar sem ser capturado pelo jogo, sem entregar a própria essência à lógica que divide. A divisão começa dentro — e é dentro que ela se desfaz. Quem alcança integridade não precisa derrotar ninguém. Apenas devolve ao mundo uma pessoa a menos para ser dividida.